Essa matéria foi feita com uma jornalista que admiro muito, Eliane Brum, colunista revista Época. Eliane tem alguns livros publicados e é de um humanismo em suas matérias que jamais conseguirei explicar. Só lendo as matérias dela para entender. O perfil foi feito na época da faculdade, para a matéria de revista, com alguns colegas de sala. Vale a pena conferir. Créditos para: Deborah Miranda, Kellen Santos, Laerte Martins, Marina Ferreira e Sandra Almeida.
Multifacetada
Jornalista há 20 anos, essa gaúcha trabalhou por onze anos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde começou após ganhar um concurso que tinha como premiação um estágio no jornal. Atualmente é repórter da revista Época, da editora Globo. Também, é autora de três livros: Coluna Prestes – o avesso da lenda; A vida que ninguém vê e o recém lançado, O olho da rua – uma repórter em busca da literatura da vida real. É mãe de Maíra, a quem dedica seu livro “A vida que ninguém vê”, e esposa de João.
Eliane é co-diretora e co-roteirista do documentário “Uma história Severina”, que narra a saga de uma nordestina grávida de um feto anencefálico e teve sua permissão para aborto cassada pelo Supremo Tribunal Federal. O documentário foi contemplado com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais.
Talentosa e premiada, a jornalista ganhou quase 40 prêmios de reportagem como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna e Sociedade Interamericana de Imprensa.
Sensibilidade jornalística
Sensível. Assim, Eliane Brum é definida por jornalistas, acadêmicos e até por ela. Voz serena, calma e muita certeza no que diz, surpreende pela delicadeza e atenção com que fala. Na correria do dia a dia, sabe como ninguém, transformar histórias de vida simples em matérias grandiosas, capazes de emocionar. Assim é ela também na literatura. Aos futuros jornalistas passa uma mensagem otimista. Diz que é possível fazer a diferença.
Seu trabalho é minucioso. Descreve cenários, traça perfis e tem a capacidade de entender o entrevistado, mesmo que ele tenha índole duvidosa. A jornalista diz que “o mundo não é feito de bandidos e mocinhos. Deve-se ver a totalidade das pessoas, independente dos seus atos. Fugir do preconceito.”
O jornalista Humberto Trezzi, que trabalhou com Eliane no jornal Zero Hora, em 1989, no caderno Geral, conta que ela sempre se destacou por ter sensibilidade extrema. “Eliane é do tipo que ouve mais do que fala”, afirma. Diz que a jornalista já recebeu críticas de muitos leitores, em Porto Alegre, por seu estilo de texto diferente. Conta que Eliane fez uma reportagem sobre um rapaz que assassinou os pais e os leitores não gostaram do espaço dado a um assassino, nem da descrição dada na matéria. “Foi um trabalho muito semelhante ao do livro, A Sangue Frio, do Truman Capote”. E finaliza: “Eliane fala pouco, é de observar e escutar mais.”
A jornalista possui comunidade no site de relacionamento “Orkut” e grande parte dos participantes são jornalistas e estudantes de comunicação admiradores de seu trabalho. Na página, é possível ler muitos elogios sobre seu cuidado ao fazer suas matérias.
Para a participante da comunidade, leitora assídua e também jornalista, Andréia Rabaiolli, Eliane foi sua referência para fazer um jornalismo mais humano, com mais gosto e sabor, seja ele doce ou amargo. Andréia diz que a jornalista foge do olhar domesticado, costumeiro de muitos profissionais dessa área. “Para mim, ela é a melhor repórter do país e seus textos me arrepiam”, completa.
A editora da sucursal do Rio de Janeiro da revista Época, Ruth de Aquino, é categórica: “Eliane Brum tem o melhor texto literário e humano do Brasil”.
O envolvimento com os personagens é fundamental. Saber ouvir, procurar entender a história, o passado do entrevistado. “Não acredito em não me envolver com os personagens, sem esse envolvimento, não tem graça. Depois de entrevistá-los não sou a mesma. Todos me transformam, me mudam de alguma forma.”
Em um de seus trabalhos, Eliane acompanhou a cantineira, Ailce de Oliveira Souza, por 115 dias, que tinha câncer e não pôde fazer quimioterapia. Ailce sabia que ia morrer e Eliane também. A jornalista conta que teve uma responsabilidade muito grande ao fazer essa reportagem. Percebeu que a cantineira confiou a Eliane a história de sua vida, uma história que jamais leria.
Eliane diz que foi uma tarefa difícil. Em alguns momentos, desejou finalizar a matéria, devido o sofrimento que compartilhava. Mas em outros, o desejo era que aqueles momentos não acabassem, pois o fim significaria a morte de Ailce. Um laço de afeto foi criado entre as duas, pois apesar de estar doente, em seu leito de morte, Ailce falava de vida, não de morte.
Já o escritor e amigo de Eliane, Sebastião Nicomedes de Oliveira, diz que Eliane tem fé nas pessoas, não desacredita nelas, mesmo quando não há razão para o contrário. Ele acredita que gente como ela, atualmente, é raro de se encontrar. “O diferencial da jornalista é conseguir retratar tragédias sem sensacionalismo e com humanismo, de forma que chame a atenção da sociedade de alguma forma. As reportagens da Eliane provocam reações que mexem com a mente e o coração, abalam a alma e as estruturas da sociedade”, diz.
Eliane diz que o grande desafio de suas matérias é fazer com que as pessoas se reconheçam nas histórias. “Me preocupo com o que escrevo, já que chega às mãos de milhares de leitores. Meu trabalho tem que ter o olhar do entrevistado. Se isso não acontece, não me realizo como profissional.”, conclui.